Diário de navegante

Ontem, queimei minhas caravelas;
Transformei tudo em cinza, fuligem.
Vi as chamas lamberem as velas,
Fiz tudo crepitar, em vertigem.

Clareei a noite com mil sóis.
Para não ver tudo o que fomos nós;
Queimei bandeiras, nossos lençóis,
E chorei por sermos bons, mas tão sós.

Na praia da Esperança abandonada
Gritei, cheio de mágoa e confusão,
Em meio a uma dor desalmada:
– Não! Não ao mar inseguro da paixão!

No final, deixei ali, ancorada,
Somente a nau que restou, “Ilusão”,
Abandonada e iluminada
Com os dizeres: “Nau sem capitão!”

No fundo dos mares, um pedaço do passado

Na globalização, naufragam sonhos e certezas
Na globalização, naufragam sonhos e certezas

Navegando por aí, encontrei um curto mas belo texto sobre naufrágios. No caso específico, naufrágios de caravelas portuguesas perto do Brasil ou já na baía da Guanabara. E, navegando mais além, descobri que o tempo da globalização é o dos naufrágios; dos nossos sonhos e certezas que afundam. Muitas vezes, chegamos sãos e salvos às praias, mas queimamos as caravelas para não voltar ao que éramos.

Cada naufrágio, real ou simbólico, guarda no fundo dos mares um pedaço do passado. O carregamento mostra a economia da época (a nossa riqueza interior); o tipo de embarcação retrata a tecnologia usada (como nos comportávamos). Já a recomposição do acidente revela o drama da tripulação derrotada por ventos, tormentas, epidemias, arrecifes, explosões e combates. Ou seja, a histórias de vidas.

Bem-vindos a este refúgio de náufragos.