Camila (ou Um tio muito chato)

I
Minha irmã Isabel pede um comprimido contra a gripe para Camila, minha sobrinha de três anos.
— Você gosta do tio Rui? – começo.
— Gótchi – responde, com a paciência ainda não testada.
— Você é Super-Homem ou Batman? – prossigo, com esta pergunta insana.
— Batman é super-herói! – ela responde.
— Onde está a Camila? – eu de novo.
— Está aqui! – diz, espantada, com a pergunta sem noção.
— Conta uma história? – eu peço.
— Só na escola! – retruca, com a paciência já arranhada.
— Eu quero falar de “Camirra” – insisto, mudando de assunto e imitando o jeito dela pronunciar seu próprio nome.
— Em nome do Pai, Jesus, que proteja… – a sobrinha olha para o teto e começa a rezar.

II
— Você faz xixi na cama? – provoco.
— Não faço! – respondo indignada.
— Você tem amigos na escola? Tem a Katleen não é? – pergunto.
— Isso, a Quélinque! – responde, aliviada, falando da amiga Kelly e achando que o tio voltou ao normal
— Lábio… – volta o tio sem noção, pedindo para repetir.
— Laibo! – repete, chateada.
— Eu amo a Mári (a irmã dela, Mariana, de dois anos)…
— Eu amo a Mári! – repete, conformada.

III
— Diz: “Isso é muito lamentável!” – peço a ela.
— “Isso é muito lamentável!” – repete, de modo muito engraçado, para minha alegria.
— O que significa? – pergunto.
— Porque sou! – responde, mudando divertidamente de assunto.
— Quantos anos você tem?
— Três!
— 1, 2, 3, 4, 5… – conto nos dedos.
— 1, 2, 3, 4, 5… – ela repete.
— A inflação foi de 10,61%. Isso é bom?
— É bom! É bom! (risos de todos).

IV
Jojó, o pai, também brinca com as filhas. Reclama do mau tempo no domingo, em Joinville, e queixa-se: — Papai está barrigudo! Camila aponta para uma história no livro:
— História do gato que “móide”: o gato “modia” e fugiu…fugiu e não queria dar papo pro cachorro! O cachorro estourou o gatinho! Estourou a bola do miau! (risos de todos). Puxa-vida! – lamentou Camila.
— Quem falou isso? – questionei, espantado.
— Tu! – interrompe a irmã Mariana, ao fundo, apontando para mim. Camila, ainda muito gripada, tosse.
— Saúde! – provoquei.
— Não é saúde; é “tófe”! – corrigiu. Mais risos gerais.

V
Camila pede para ser maquiada:
— Passa nos olhos para ficar bonita! – pede à mãe.
— Você gosta do tio Rui? – o tio babão ataca de novo.
— Gótchi!
— Você quer ir ao Rio de Janeiro?
— Eu sou pequenininha!
— É?
— É, mas eu já tô crescendo! Minha avó “Camirra” está em Portugal. Ela está voando em Portugal! (risos!) A vovó está na “aipótchi”? (mais risos!)

VI
— Você gosta da Mariana? Do tio Rui? (eita, tio chato!)
— Tu deu beijinho aqui e tua “baiba” na minha boca! – desvia, reclamando do meu beijo na bochecha dela e da barba por fazer, que roçou em sua boca.
— Tu gosta da Camila? Ah…deixa eu ver….Ah, eu gosto! – provoco.
Camila suspira, cansada e impaciente, enquanto a irmã Mariana fala. E, de repente, começa a contar:
— 1, 2, 3, 4, 12, 13, 14, 15, 17, 18, 19 e diz-dez! (risos gerais e irrestritos! Camila também ri!)

VII
Pego Camilla pelas duas mãos e começo a rodar com ela pela sala, uma de suas brincadeiras preferidas. Bela reclama. Camila canta:
— Atirei o pau no gato-tô! Marinheiro, motorista…Ah, não sei essa música! (Mariana ri!)
— Põe a mão aqui no meu coração que eu tô cansada! – reclama a minha sobrinha, amor da minha vida, encerrando mais um momento de bagunça, pureza e alegria.

Joinville (SC), fevereiro/2002