À esquerda jardim, alguém zela por mim

 

Fonte no Jardim Botânico do Rio (foto de Rui Pizarro)
Jardim Botânico, RJ (Rui Pizarro)

Uma vez haviam dito a ele que no mundo na vida, havia mistérios. E que era só prestar atenção para comprovar isso. Um padre, que rezara com fervor durante toda uma vida para ganhar a benção de apenas um milagre que fosse, foi o autor dessa revelação, dita em tom de quase segredo e que, praticamente, mais ninguém ouviu.

Apesar de não ter visto nem milagres, nem coisas do outro mundo, a não ser as terrenamente mais dolorosas, como as misérias humanas, uma imensa e inexplicável fé colava nos lábios do religioso a palavra mistério. E outras preciosas, como aparição, magia e anunciação, que poucos fiéis entendiam. Muitos diziam que a falta de milagres ia, na realidade, e aos poucos, enlouquecendo o padre, vagarosamente, como uma doença traiçoeira que vai, lentament, extinguindo a vida.

Mas, apesar de tudo, o jovem nunca esqueceu aquela mensagem, dita numa manhã cinzenta, no silêncio sagrado da sacristia, antes da primeira missa do dia. O jovem tornou-se adulto, mas o vendaval dos anos que passou por ele nunca o deixou esquecer que há mistérios, sinais e aparições na vida.

É só saber olhar com outros olhos, com os olhos que o tempo e a vida modificam, que alguma coisa sempre surge. Entretanto,  ele, que tanto se dedicou à vida, a uma luta de sacrifícios e sem objetivos, com o passar dos segundos, dos minutos e das horas, esqueceu-se da revelação como quem esquece guarda-chuvas em dias de temporal: imprudentemente.

Quando dorme, esquecido do que deixou de fazer naquele dia, dos compromissos que não assumiu, da dor e do medo que sentiu, sonha o sonho dos homens justos como quem combate o bom combate. Sonha até colorido; um colorido intenso que só a morfina que aplaca a dor nos hospitais, permite.

Quando dorme, não percebe que há um vulto sentado na escuridão do quarto, na esquina de uma das esquinas do quarto ou da sua vida. Sentado, quieto, como quem vela por um homem frágil, para que a alma não se descole de seu corpo. Pelo menos, antes do tempo determinado por Deus.

Esse vulto que ele não vê, que julgou ver um dia e depois esqueceu que existia, esteve em um de seus sonhos. À esquerda de um jardim paradisíaco, situado no interior de um castelo que mais se assemelhava a um palacete indiano, havia uma pequeno lago ornado por duas fontes de águas cristalinas e quase silenciosas.

Perto de uma das fontes, na penumbra de uma árvore cheia de flores azuis, lá estava o vulto que, pelo menos na ilusão de um sonho, existia. Mas o homem, quando exausto, desabava em sua cama e deixava o pequeno apartamento mergulhar no silêncio, não se dando conta que o vulto estava lá. E mais: que zelava por ele. E mais: que quando não estava, outros mistérios aconteciam.

Nenhuma lei anistiará a tortura

A tortura envergonha a humanidade
A tortura envergonha a humanidade

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), com a aquiescência do ministro e ex-torturado Eros Grau, de arquivar a ação da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que contestava a Lei da Anistia, surpreendeu o Brasil. Ou, pelo menos, aqueles que sentiram na carne as marcas dos anos de chumbo ou que, como eu, apesar de jovens – e ainda assim vigiados –, logo adquiriram consciência política sobre o que se passava no País.  Graças ao STF, portanto, os torturadores continuarão sem acertar contas com o passado e com a Justiça.

Como em muitas situações da vida, basta ter bom senso para saber que nessa guerra só houve perdedores. De um lado, uma ditadura e todo o aparelho do Estado envolvido em uma repressão violenta. Do outro, os críticos do regime que resolveram lutar, ainda que de armas na mão, por uma pátria diferente. O que seria de se esperar? Que o Estado e seus agentes prendessem, julgassem e condenassem.

O que se viu, no entanto, foi a barbárie; a tortura, o suplício, o tormento – inclusive de inocentes –;  enfim, atos horrendos que tornam indigno de ser chamado ser humano qualquer monstro que os pratique. Os torturados ficaram com a pior parte: foram presos ou mortos. Os torturadores, por sua vez, ficaram livres, inclusive dos remorsos.

Tem algo de errado nessa Lei de Anistia. Nos idos de 1979, nos tempos da redemocratização, era até onde se podia chegar. Mas hoje não podemos ser coniventes ou omissos com a barbárie, nem esquecer ou começar do zero. É impossível acertar com a indignação ou com a dor uma data a partir da qual ela pode começar a ser (con)sentida. Não; o sofrimento é antigo e talvez eterno. Mas sempre será mais doloroso se nunca se fizer Justiça.

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A propaganda subliminar nas eleições

Em um texto mais do que oportuno, publicado na página 2 da edição deste sábado do Estadão, meu colega de profissão Mauro Chaves desmascara as intenções — em geral más — que se escondem por trás da propaganda subliminar. O exemplo mais recente é o dos 45 anos da TV Globo.
A pretexto de comemorá-los, a emissora veiculou um clipe com ênfase no número 45, que identifica o partido político do candidato da oposição à Presidência da República. O vídeo ainda repetia vergonhosa e explicitamente o slogan da campanha de José Serra, “O Brasil pode mais”. Mas há outros maus exemplos mencionados por Mauro Chaves (clique e leia, na íntegra).

 É importante que o cidadão comum e, sobretudo, os formadores de opinião — que, obviamente, não sejam facciosos — saibam identificar esse tipo de manipulação pérfida  da informação.