Diário de navegante

Ontem, queimei minhas caravelas;
Transformei tudo em cinza, fuligem.
Vi as chamas lamberem as velas,
Fiz tudo crepitar, em vertigem.

Clareei a noite com mil sóis.
Para não ver tudo o que fomos nós;
Queimei bandeiras, nossos lençóis,
E chorei por sermos bons, mas tão sós.

Na praia da Esperança abandonada
Gritei, cheio de mágoa e confusão,
Em meio a uma dor desalmada:
– Não! Não ao mar inseguro da paixão!

No final, deixei ali, ancorada,
Somente a nau que restou, “Ilusão”,
Abandonada e iluminada
Com os dizeres: “Nau sem capitão!”

Fragmentos de um sonho

Meu cavalo puro-sangue entra no palácio árabe
de ladrilhos, fontes e vitrais de todas as cores;
Templo do silêncio amigo, casa de antigos amores;

Ajoelhado, vejo as cores das pastilhas vibrantes
de cidades mágicas, como belas e imensas Sevilhas;
Cheias de amigas, irmãs, confidentes e filhas.

Fujo, planando, lentamente, rente ao chão;
Deixo esses lugares sem nunca ter encontrado
Sinais da tua presença ou de um símbolo sagrado;

Mais adiante ganho altura e rodopio feliz,
Dentro do globo gigante de ouro envelhecido,
Gaiola protetora de quem nunca foi vencido.

O povo canta nas casas que aquecem a alma.
Tua comida e teu sorriso orientais enfeitam a mesa;
Meu olhar se acalma com tanta fartura e beleza.

Grandes lábios

Eu não acredito no que a tua boca diz,
Pois as palavras são mortais;
Desfazem-se como giz,
Espalham-se como sais.

Dependendo da direção do vento,
Eu poderei até nem ouvir;
Imaginarei, apenas no pensamento,
O doce movimento, o sentir

Dos teus grandes lábios.

Rio, 06/3/87