A atualidade de Garaudy

Em seu livro Deus É Necessário? (Avons-nous Besoin de Dieu?), escrito em 1992, o filósofo francês Roger Garaudy, ex-católico e ex-comunista, falecido em 13 de junho deste ano (2012), critica a ambição de poder que tem caracterizado a história da humanidade ao longo dos séculos. Como exemplo, cita a transformação de algumas nações em imperialismos concentradores da riqueza mundial, em detrimento de outras, subjugadas, dominadas e exploradas. Na época em que finalizou a obra, Garaudy já antevia o estágio em que o capitalismo selvagem, agora travestido sob a denominação mais “suave” de liberalismo (ou neoliberalismo), haveria de transformar a humanidade, como parte da estratégia de se constituir em um sistema dominante e vencedor. O estágio seria o do embrutecimento e o da insensibilidade provocados pelo avanço da tecnologia, sobretudo da internet.
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Visões

À noite Emanuel dorme e não as coisas mágicas que acontecem em seu quarto. Livros saem das estantes e flutuam silenciosamente. As páginas abrem-se como se fossem folheadas por espíritos. Mas outros objetos flutuam, também. Molduras com retratos iluminados por focos de luz vindos não se sabe de onde, velas que acendem sozinhas, vidros de tinta que se abrem e espalham cores pelo ar. Como no interior de uma nave espacial, tudo flutua magicamente.

Às vezes Emanuel acorda, desconfiado do movimento. Mas o silêncio é total e parecem existir apenas vultos. Alguns encostados na parede, outros sentados no sofá, mas todos muito tranqüilamente posicionados. Disse-lhe um padre, na cidade de Lisboa, que eram, muito provavelmente, anjos. “São os anjos que nos protegem. Nos momentos de maior tranqüilidade, eles tornam-se mais visíveis. E aparecem, também, quando estamos para partir”, acrescentou o religioso, usando uma expressão mais suave para definir a morte.

O parecer foi confirmado por uma cartomante atéia, no Rio de Janeiro, durante uma sessão esotérica, um ano depois. A senhora, quase uma anciã, parecia ter combinado tudo com o padre, não morasse este do outro lado do Atlântico. E disse mais, a senhora: que os espíritos que nos acompanham nem sempre podem nos proteger e defender. Sussuram-nos coisas boas aos ouvidos. E não gostam de televisão. De cinema, música e celulares sim; mas televisão, não. Ou seja, onde há comunicação — ou tentativa de — eles estão presentes como podem; isto é, invisivelmente. Já a televisão obscurece o coração e a mente. Torna os seres humanos menos humanos e mais apáticos.

A cartomante falou tanto que parecia estar passando uma mensagem de alguém para Emanuel. Quando começou a ouvi-la, ele tinha menos de 20 anos. Quando ela terminou, Emanuel era um homem de 45 anos, mas conservou sempre o mesmo olhar curioso do jovem que ouviu as primeiras adivinhações. Sem perguntar nada, a misteriosa mulher adivinhou que Emanuel tinha asas nos pés como o regente de seu signo, Mercúrio. Sim, ele tinha a inquietude, a curiosidade e a versatilidade dos geminianos. Mas, perturbado com tantas verdades e previsões, saiu apressadamente da sessão. Como se tivesse asas nos pés. Ou nas costas.

Rio, 28/3/2002