De Leonor, com amor

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Meu daltonismo (ou desconhecimento das cores) me leva a situações inusitadas como a de achar que a cor do salmão está mais para laranja do que rosa. Minha filha de seis anos me pediu para fazer um jogo de adivinhação. Eu perguntei: “O que é, o que é, vive no mar, é cor de laranja e os ursos adoram?”. Minha filha responde, de imediato: “O Nemo???” – Segunda-feira, 27 de agosto

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“Por que o sol mudou de lugar???” (pergunta feita durante o almoço, após a passagem de uma grande nuvem que encobriu o sol e escureceu a cozinha) – Sábado, 18 de agosto

Cartas de minha irmã Bela – 1983

Curitiba, 5 de outubro de 1983

Querido SusUlha,

Realmente, não entendo. Já te escrevi três cartas desde o dia 7 de setembro e tu já me escreveste 2, e em nenhuma delas mencionaste teres recebido carta minha. Não sei o que se está passando, mas o endereço eu creio que esteja certo, senão seriam devolvidas. O que se passa? Por que não recebes as minhas cartas? Estou deveras preocupada.

Quanto à vidinha por aqui, vai indo. Estive de cama, neste último fim de semana (dias 1 e 2), com uma forte gripe. Ainda estou, mas agora bem melhor!

Gostei muito desta tua última carta em que falavas de nós os dois, naquele apê do Ramon, quando eu chorava e tu fazias de tudo para não chorares também. Para ser franca, saudades não tenho. Tenho, sim, saudades da força que tu me deste; de todo o apoio moral e de todo o amor. Isso não se pode esquecer!

Tu pareces parvo quando me dizes que admiras a minha força e a minha coragem. Realmente, comparando com o que eu fazia antigamente (não fazia nada!), hoje estou fazendo muito e com muita força!

Agora, em vez de pensares no que eu e o Jorge fazemos e fizemos, pensa no que tu fazes. Se parares para pensar, vais ver como tens força! Para começar, eu moro em Curitiba e tu no Rio, o que quer dizer que, apesar de tudo, é mais tranquilo viver aqui do que aí! Então, já tens contra ti o stress, a inflação, o custo de vida etc.

E adicionando a isto, tem os teus encargos que superam os nossos porque tens a faculdade. Então, se formos analisar a coisa, verás que, tanto tu, como eu, temos a mesma coragem, a mesma força e a mesma garra. Só que os meus resultados são mais palpáveis porque eu moro num lugar melhor que tu (e espero que este lugar continue assim)!

Resumindo: tens que juntar a tua força ao meu amor, terminares a faculdade e vires morar para aqui, para ao pé da tua irmã Kiduchinha! Porque eu gosto muito de ti e sinto muito a tua falta! Quando eu li esta tua última carta, chorei só de pensar no que nós passamos naquela “caverna”, como diz a Mãe! Mas essa passagem nas nossas vidas só serviu para nos dar mais força para lutar e seguir sempre em frente. Vê se tu não melhoraste, hein?

SusUlha tem que ver, primeiro, a força interna que SusUlha tem. Sabes Rui, tu tens muita força e muita coragem, mas talvez ainda não tiveste ninguém que tirasse essa coragem e essa força cá para fora. Eu também não sabia que tinha força e coragem — acho que ninguém sabia.

Quem diria que aquela menina que não fazia nada, só enchia o saco dos outros, iria, de repente, fazer a sua vida com a cara e a coragem? Nem eu iria acreditar, se me dissessem há quatro ou cinco anos, que eu iria fazer tudo o que fiz.

Tudo depende da ocasião. Eu, por exemplo, tive o Jorge do meu lado, que me ajudou muito, sempre me apoiando e me dando força. Portanto, tens de pensar que a realidade é que tu és  como eu — ou melhor!  Se não quiseres esperar até terminares a faculdade aí, vem para cá porque aqui também tem faculdade de jornalismo. Se quiseres, eu informo-me sobre a transferência, ok?

Bem, mudando de assunto, como vão as coisas por aí? Pelo que sei, sol que é bom, não tem tido, ah, ah!!! Quando vens aqui de novo? Sabes, eu e o Jorge estamos pensando em casar em novembro/dezembro, que será a altura em que a Mãe e o Zé devem estar aqui? Então, se não vieres antes, vem nessa altura, não é?

Rui, peço-te desculpas por ter feito com que fosses até à casa dos Meirinho para pegares esta carta, mas como ando preocupada com esse negócio de não receberes as minhas cartas, não quis arriscar. Puxa, já são duas cartas que te escrevo e tu não recebes ou, pelo menos, não acusas recepção. Por isso, preferi escrever para a casa dos Meirinho.

Bem, vou terminando por aqui porque meu colega — estou a escrever no banco — já falou que eu não estou escrevendo uma carta, mas sim um livro! Ela perguntou se eu não queria mandar encadernar e te mandar já em forma de livro, ah, ah!!!!!!!

Milhões de beijos para todos e um grande beijão para a Lilian. Como ela está? Gostando do emprego? Agradece mais uma vez a ela as cartas que me escreveu, ok?? Aissi, Aissi!!!! Milhões de beijos de quem te ama!

Bela

P.S. Na última carta que te escrevi, fiz um desenho que era assim (coração atravessado por uma flecha): “O coração do povo flechado pela inflação!”….ah, ah, ah! Não recebeste? Adoro-te! Milhões de beijos.

Camila (ou Um tio muito chato)

I
Minha irmã Isabel pede um comprimido contra a gripe para Camila, minha sobrinha de três anos.
— Você gosta do tio Rui? – começo.
— Gótchi – responde, com a paciência ainda não testada.
— Você é Super-Homem ou Batman? – prossigo, com esta pergunta insana.
— Batman é super-herói! – ela responde.
— Onde está a Camila? – eu de novo.
— Está aqui! – diz, espantada, com a pergunta sem noção.
— Conta uma história? – eu peço.
— Só na escola! – retruca, com a paciência já arranhada.
— Eu quero falar de “Camirra” – insisto, mudando de assunto e imitando o jeito dela pronunciar seu próprio nome.
— Em nome do Pai, Jesus, que proteja… – a sobrinha olha para o teto e começa a rezar.

II
— Você faz xixi na cama? – provoco.
— Não faço! – respondo indignada.
— Você tem amigos na escola? Tem a Katleen não é? – pergunto.
— Isso, a Quélinque! – responde, aliviada, falando da amiga Kelly e achando que o tio voltou ao normal
— Lábio… – volta o tio sem noção, pedindo para repetir.
— Laibo! – repete, chateada.
— Eu amo a Mári (a irmã dela, Mariana, de dois anos)…
— Eu amo a Mári! – repete, conformada.

III
— Diz: “Isso é muito lamentável!” – peço a ela.
— “Isso é muito lamentável!” – repete, de modo muito engraçado, para minha alegria.
— O que significa? – pergunto.
— Porque sou! – responde, mudando divertidamente de assunto.
— Quantos anos você tem?
— Três!
— 1, 2, 3, 4, 5… – conto nos dedos.
— 1, 2, 3, 4, 5… – ela repete.
— A inflação foi de 10,61%. Isso é bom?
— É bom! É bom! (risos de todos).

IV
Jojó, o pai, também brinca com as filhas. Reclama do mau tempo no domingo, em Joinville, e queixa-se: — Papai está barrigudo! Camila aponta para uma história no livro:
— História do gato que “móide”: o gato “modia” e fugiu…fugiu e não queria dar papo pro cachorro! O cachorro estourou o gatinho! Estourou a bola do miau! (risos de todos). Puxa-vida! – lamentou Camila.
— Quem falou isso? – questionei, espantado.
— Tu! – interrompe a irmã Mariana, ao fundo, apontando para mim. Camila, ainda muito gripada, tosse.
— Saúde! – provoquei.
— Não é saúde; é “tófe”! – corrigiu. Mais risos gerais.

V
Camila pede para ser maquiada:
— Passa nos olhos para ficar bonita! – pede à mãe.
— Você gosta do tio Rui? – o tio babão ataca de novo.
— Gótchi!
— Você quer ir ao Rio de Janeiro?
— Eu sou pequenininha!
— É?
— É, mas eu já tô crescendo! Minha avó “Camirra” está em Portugal. Ela está voando em Portugal! (risos!) A vovó está na “aipótchi”? (mais risos!)

VI
— Você gosta da Mariana? Do tio Rui? (eita, tio chato!)
— Tu deu beijinho aqui e tua “baiba” na minha boca! – desvia, reclamando do meu beijo na bochecha dela e da barba por fazer, que roçou em sua boca.
— Tu gosta da Camila? Ah…deixa eu ver….Ah, eu gosto! – provoco.
Camila suspira, cansada e impaciente, enquanto a irmã Mariana fala. E, de repente, começa a contar:
— 1, 2, 3, 4, 12, 13, 14, 15, 17, 18, 19 e diz-dez! (risos gerais e irrestritos! Camila também ri!)

VII
Pego Camilla pelas duas mãos e começo a rodar com ela pela sala, uma de suas brincadeiras preferidas. Bela reclama. Camila canta:
— Atirei o pau no gato-tô! Marinheiro, motorista…Ah, não sei essa música! (Mariana ri!)
— Põe a mão aqui no meu coração que eu tô cansada! – reclama a minha sobrinha, amor da minha vida, encerrando mais um momento de bagunça, pureza e alegria.

Joinville (SC), fevereiro/2002