À esquerda do jardim, alguém zela por mim

Fonte no Jardim Botânico do Rio (foto de Rui Pizarro)
Jardim Botânico, RJ (Rui Pizarro)

Um dia, disseram-nos que, no mundo e na vida, havia mistérios. Que era só prestar atenção para comprovarmos isso. Um padre, que rezara com fervor durante toda a sua existência, apenas para ganhar a benção de um só milagre, foi quem nos afirmou isso, ontem.

‘Nós não vemos nem milagres, nem coisas do outro mundo, a não ser as terrenamente mais dolorosas, como as misérias humanas’, dissemos nós a ele. Mas uma imensa e inexplicável fé colava nos lábios do religioso a palavra mistério. E outras, como aparição, magia e anunciação. O povo dizia que a falta de milagres ia, na realidade e aos poucos, enlouquecendo o padre, como uma doença traiçoeira que vai extinguindo a vida, sem mistérios.

Dizia o religioso que basta-nos, apenas, saber olhar com outros olhos, com os olhos que o tempo e a vida modificam, que alguma coisa misteriosa sempre surge. E, quando dormimos, não percebemos que há vultos sentados na escuridão do quarto, na esquina de uma das esquinas do quarto ou da vida. Sentados, quietos, como quem vela por um seres frágeis, para que a alma não se descole dos nossos corpos antes do tempo determinado por Deus.

O vulto que me apareceu em sonhos estava à esquerda de um jardim paradisíaco, situado no interior de um castelo que mais se assemelhava a um palacete indiano. Havia, também, um pequeno lago ornado por duas fontes de águas cristalinas e quase silenciosas.

Perto de uma das fontes, na penumbra de uma árvore cheia de flores azuis, lá estava ele, pelo menos na ilusão de um sonho, zelando por mim. E quando não estava, outros mistérios aconteciam….

Nenhuma lei anistiará a tortura

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de arquivar a ação da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que contestava a Lei da Anistia, surpreendeu o Brasil. Ou, pelo menos, aqueles que sentiram na carne as marcas dos anos de chumbo ou os que, como eu, apesar de jovens – e ainda assim vigiados –, logo adquiriram consciência política sobre o que se passava no País.  Graças ao STF, portanto, os torturadores continuarão sem acertar contas com o passado e com a Justiça.

Nos anos sombrios pós-64, o Brasil travou uma guerra onde só houve perdedores. De um lado, a ditadura e todo o aparelho do Estado envolvido em uma repressão violenta. Do outro, os críticos do regime que resolveram lutar, ainda que de armas na mão, pela democracia. Mas, em vez de prender, julgar e condenar, o Estado e seus agentes sequestraram, torturaram e mataram.

O que ocorreu foi a barbárie, o suplício, o tormento – inclusive de inocentes. O que se viu foram atos horrendos que tornam indigno um monstro ser chamado de ser humano. Os torturadores, por sua vez, ficaram livres, inclusive dos remorsos.

Não podemos ser coniventes ou omissos com a barbárie, nem esquecer ou começar do zero. É impossível combinar com a dor uma data a partir da qual ela pode começar a ser (con)sentida. O sofrimento é antigo, mas, sempre será mais doloroso se nunca houver Justiça.

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Brasília, 50 anos: o povo merecia mais

Desfile pífio sob um sol inclemente (Foto: Rui Pizarro)
Em pé e ao sol: desfile pífio (Foto: Rui Pizarro)

A modesta comemoração do meu meio século de vida, no ano passado, no Morro do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, em meio a muita chuva, vento e frio, foi muito mais animada que a festa dos 50 anos de Brasília, realizada ontem, 21 de abril. O que se viu na capital federal foi triste, muito triste. O povo de Brasília merecia mais.

Até minha filha, de 4 anos, sentiu a ausência da Bela e a Fera no desfile monótono e cruelmente atrasado dos bichos da Disney. O rock estrangeiro e inusitado nas caixas de som, o acrobático show da Esquadrilha da Fumaça que muitos não viram — vencidos pelo cansaço e pelo calor —, e a corrida dos atletas não foram suficientes para me fazer esquecer do dinheiro escondido nas pastas e meias, e que poderia ter patrocinado uma festa mais decente, sem Mickey e Donald como as principais atrações.

Na fisionomia das pessoas, um certo ar de desconsolo ou, talvez, de carência, de desproteção. O povo que veio de longe ver as atrações merecia tratamento e opções melhores. Faltaram arquibancadas que dariam um conforto maior às pessoas e crianças. Faltou mais música brasileira, mais Brasil desfilando e sorrindo na Esplanada dos Ministérios. Mas o pior de tudo mesmo, o pior…é que eu também estava lá!