A atualidade de Garaudy

Em seu livro Deus É Necessário? (Avons-nous Besoin de Dieu?), escrito em 1992, o filósofo francês Roger Garaudy, ex-católico e ex-comunista, falecido em 13 de junho deste ano (2012), critica a ambição de poder que tem caracterizado a história da humanidade ao longo dos séculos. Como exemplo, cita a transformação de algumas nações em imperialismos concentradores da riqueza mundial, em detrimento de outras, subjugadas, dominadas e exploradas. Na época em que finalizou a obra, Garaudy já antevia o estágio em que o capitalismo selvagem, agora travestido sob a denominação mais “suave” de liberalismo (ou neoliberalismo), haveria de transformar a humanidade, como parte da estratégia de se constituir em um sistema dominante e vencedor. O estágio seria o do embrutecimento e o da insensibilidade provocados pelo avanço da tecnologia, sobretudo da internet.

“Para compreender a situação atual do mundo — escreveu Garaudy — em todas as suas dimensões, da econômica à religiosa, é necessário descrever tais trajetórias históricas paralelas. Em primeiro, a que conduziu ao atual monoteísmo de mercado. Ela viveu de três mitos sucessivos: o do progresso ao longo de quatro séculos; em seguida, em menos de meio século, com o desencanto do mito do progresso depois da Segunda Guerra Mundial, o do non-sense — as filosofias do absurdo; finalmente, procurando superar seu desespero, o mito da inteligência artificial, das máquinas de pensar substituindo o homem na pilotagem do mundo: o mito do computantropo.”

E assim temos um livro de 1992 que não perdeu a sua atualidade porque mantém questionamentos que não envelhecem e que, pelo contrário, se tornam ainda mais angustiantes, tornando permanente a crise existencial do homem que pensa e que sente. Prossegue Garaudy: “O computador, instrumento maravilhoso para escolher as possibilidades mais eficazes e me dizer “se quer alcançar tal objetivo, esses são os caminhos e os meios”, pode me ditar o que devo querer se minha meta for outra que não o melhor resultado?…Daí se infere uma nova visão da vida, dominada por uma concepção traiçoeira da comunicação: a comunicação é o conjunto das “informações” que podem ser transmitidas pela lógica e a técnica de máquinas cada vez mais sofisticadas.”

Garaudy ressalta, então: “Nessa perspectiva do totalitarismo informático da comunicação, não teria sentido englobar todas as outras formas de comunicações humanas, não “racionais”, não “científicas”….A “santa aliança” entre a economia de mercado e essa técnica de informação realizou-se, naturalmente, quanto mais uma e outra se fundavam na mesma concepção redutora e quantitativa do homem e de seu futuro”. O filósofo, apocalipticamente, faz a seguinte reflexão:…“Essa visão logística do homem, do mundo e da história segrega seus anticorpos para excluir o espírito crítico e a escolha humana. O conhecimento é reduzido à informação, tanto no sentido técnico, quanto no sentido publicitário da palavra. Dos jogos de televisão para adultos (games?) aos brinquedos “educativos” para crianças, a cultura é confundida com o acúmulo de informações: para isso basta, efetivamente, eliminar a reflexão sobre o sentido e a finalidade.”

Roger Garaudy foi o artífice internacional da aproximação entre cristãos e marxistas. Não creio que tenha se desencantado com o mundo e com seus próprios escritos. Não se desencantou com a fé, que distinguia das religiões e seus fanatismos (“que aparecem se dirigir ao futuro andando para trás”). Garaudy parece ter caminhado sempre para a frente, dirigindo para o futuro. Morreu aos 98 anos, 30 depois de se ter convertido ao islamismo e 20 anos depois de ter escrito Deus É Necessário?, titulo de um questionamento que Garaudy, certamente, continuaria fazendo.

Autor: Rui Pizarro

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