Fragmentos de um sonho

Meu cavalo puro-sangue entra no palácio árabe
de ladrilhos, fontes e vitrais de todas as cores;
Templo do silêncio amigo, casa de antigos amores;

Ajoelhado, vejo as cores das pastilhas vibrantes
de cidades mágicas, como belas e imensas Sevilhas;
Cheias de amigas, irmãs, confidentes e filhas.

Fujo, planando, lentamente, rente ao chão;
Deixo esses lugares sem nunca ter encontrado
Sinais da tua presença ou de um símbolo sagrado;

Mais adiante ganho altura e rodopio feliz,
Dentro do globo gigante de ouro envelhecido,
Gaiola protetora de quem nunca foi vencido.

O povo canta nas casas que aquecem a alma.
Tua comida e teu sorriso orientais enfeitam a mesa;
Meu olhar se acalma com tanta fartura e beleza.

Grandes lábios

Eu não acredito no que a tua boca diz,
Pois as palavras são mortais;
Desfazem-se como giz,
Espalham-se como sais.

Dependendo da direção do vento,
Eu poderei até nem ouvir;
Imaginarei, apenas no pensamento,
O doce movimento, o sentir

Dos teus grandes lábios.

Rio, 06/3/87

O querer

Todas as concepções do querer
Têm sua razão de ser,
Enquanto concepção.

Mas o meu querer
É muito menos igual
Que o de quem quer ser.

O meu querer
É ter para mim
Algo mais do que
É possível ter.

É a impaciência
Por pouco ter
Do possível
Que é possível ter.

O meu querer
É não se contentar
Em ficar só no grito
De raiva, no ferver;

O meu querer
É não se contentar
com o direito mínimo
de ter além de ser.

Rio, 16/6/87