Eleições: sobre traições, estômago e prudência

Brasília: bela, mas, na política, só para profissionais (Foto: Rui Pizarro)
Brasília: para profissionais (Foto: Rui Pizarro)

De Joaquim Silvério dos Reis, o traidor de Tiradentes, ao obscuro Cabo Anselmo, agente da ditadura que, na década de 1970, se infiltrou em movimentos de esquerda, a História do Brasil está repleta de figuras que se notabilizaram pela inconfidência, pela deslealdade, pela traição. O caso mais recente é o do delegado aposentado da Polícia Federal, Onézimo Souza – caso sejam verídicas as declarações que prestou à revista Veja.

De imediato, duas conclusões podem ser tiradas desse imbróglio. A primeira é a confirmação de que política e, principalmente, campanha eleitoral, é para quem tem estômago (também se costuma dizer que “Brasília é para profissionais”). E a segunda é de que o PSDB acusou o golpe da subida repentina de Dilma nas pesquisas eleitorais. Sem a menor dúvida.

Ao se dissecar o episódio das denúncias do delegado aposentado, verifica-se que aspectos importantes ficaram fora inclusive do que a mídia noticiou (não gostaria de voltar às críticas de sempre, mas é de estranhar o tempo que o Jornal Nacional dispensou ao assunto. Foram quase cinco minutos, incluindo a leitura de trechos da entrevista de Onézimo à revista). Mas vamos ao que ninguém comentou:

1) Não existem provas de quem fez o quê: se foi o jornalista Luiz Lanzetta quem chamou Onézimo para conversar ou se foi o delegado quem se ofereceu para fazer os grampos. A segunda hipótese parece ser a mais plausível, já que o delegado teria tudo a ganhar, em qualquer das situações: se o contrato fosse adiante ou se malograsse. Ficaria a palavra dele contra a de Lanzetta. E o sensacionalismo, para a mídia.

2) O delegado pode até ter sido convidado a fazer um trabalho de espionagem interna, mas não da campanha ou de integrantes do comitê de Serra. Esse seria um erro que o PT não cometeria depois de casos semelhantes como o dos aloprados, em 2002. É uma ingenuidade do PSDB achar que o PT embarcaria na mesma canoa.

3) De qualquer modo, diante da até excessiva precaução do comitê da campanha de Dilma em manter segredo de tudo o que se faz ou se planeja, só resta mesmo aos tucanos fazerem ilações ou superdimensionar fatos difíceis de serem comprovados na sua totalidade.

Deixo aqui duas sugestões para que a pré-campanha se mantenha em alto nível: 1) que o PT reúna poucos mas confiáveis profissionais para evitar a possibilidade de vazamentos e denúncias infundadas; e 2) que o PT abra as portas de seu comitê a jornalistas que não deturpam nem espetacularizam os fatos.

Essa última medida inclusive acabaria com a imagem de bunker e de mistério que a mídia e o PSDB espalham para a sociedade, sobre a campanha de Dilma.

Autor: Rui Pizarro

Um espaço para comentários, opiniões, debates, fotografias e celebrações de amizades, novas e antigas. Os temas vão da política à religião, do futebol ao budismo, do amor à raiva, da literatura ao jornalismo, do bom humor às manias e da poesia ao passado. Sejam bem-vindos amigos, irmãos. camaradas e companheiros.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *